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A Indústria do Fogo

Texto: Carolina Leal

Todos os anos a história repete-se, Portugal entrou num loop de incêndios florestais do qual não consegue sair. Como é possível, que em pleno século XXI, dotado de tanto recurso tecnológico (cada vez mais avançado), continuem a surgir incêndios? Este é o cerne da questão.

A esmagadora maioria dos incêndios em Portugal têm origem humana, os culpados ficam por responsabilizar e as causas são desconhecidas, e não são investigadas! Por grande incompetência coletiva, Portugal tem vindo a arrastar este problema com o qual tem sido absolutamente incapaz de resolver, e que, ao longo dos anos, tem tido cada vez mais repercussões na vida das pessoas.

A principal razão, que leva a este aumento súbito de fogos todos os anos, é a mão humana, mas veio a público com a designação “negócio do fogo” ou “a indústria do fogo”, isto é, parece que quanto mais dinheiro o governo anunciar que irá injectar no combate aos fogos, mais fogos surgem! Como assim?

Muitas questões se levantam perante esta calamidade, principalmente porque se até aos finais dos anos 80 era a Força Aérea quem controlava os incêndios, com sucesso, e com os meios adequados, e as despesas eram apenas as de funcionamento, porque é que o deixaram de fazer e se passou a entregar a função ao privado? Qual a razão para o governo insistir em gastar cada vez mais em meios e despesas no combate aos incêndios, que continuam, cada vez mais em número e proporção, a deixar rastos de destruição devastadores e reduzem os bens do povo que tanto trabalharam para ficarem sem nada?

Porque é que insistem em cortar verbas na prevenção florestal, ou a tomarem medidas antecipadas para proteger e defender? Não há guardas florestais, incentivos ou apoios (nas despesas de limpeza) aos proprietários das matas florestais?

Insistem em não incentivar, não apoiar, não canalizar recursos públicos na proteção e cuidado com a floresta, que por sinal iria prevenir e diminuir o risco de incêndios, mas preferem esbanjar tanto dinheiro no combate aos incêndios ao invés da necessária e urgente prevenção e preservação do meio ambiente?

Também se questiona o facto da área florestal que compete ao próprio Estado, estar completamente ao abandono… Isto é, deveria ser o primeiro a dar o exemplo e manter a sua propriedade preservada, mas, infelizmente, não é o que acontece.

E porque é que, apesar da existência da medida de prevenção contra os incêndios, continua a existir uma falta de fiscalização eficaz da limpeza das matas? Esta medida já foi implementada em 2018 e são poucos os casos de fiscalização que foram feitos por ano, dentro do prazo estipulado.

É incompreensível e inaceitável que continuem a existir tantas áreas por limpar, porque no final de tudo perdido, de nada vale chorar sob o leite derramado, cabe-nos a nós limpar o que a nós nos pertence e diminuir o risco de incêndios que, descontroladamente, destroem património público e privado, as poupanças, as economias e sobretudo, vidas.

O que retiramos de todo este flagelo é uma noção do quanto lucram os privados, o prejuízo de uns é o ganho de outros, prejuízo esse suportado pelo dinheiro dos contribuintes.

“Neste período crítico não faça queimas nem queimadas não autorizadas. Só com prevenção de comportamentos de risco podemos ser eficazes nesta luta”, “Há mais meios, mais profissionalizados, mas temos consciência de que este vai ser um ano difícil para todos.”, palavras de António Costa.